segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feminista e bem comida

 


Para começar preciso dizer que este texto é absolutamente inadequado para menores de idade.

Pois bem. Dizem muito por aí que feministas são mulheres "mal comidas". Como uma mulher feminista de longa data que já foi muito, mas muito bem comida, gostaria de dizer que tenho muito a dizer sobre esse mito.

Tem quem ache que, por sentir atração sexual por mulheres e ter relações sexuais com mulheres, "gosta de mulher". Pois eu digo que há centenas de homens que fazem essas duas coisas e não gostam de mulher coisíssima nenhuma. Têm nojo de buceta, têm nojo de peitos, têm nojo do cheiro do corpo de uma mulher... e, mais ainda, do intelecto, da personalidade e dos sentimentos das mulheres.

Tem homem que tem nojinho de acariciar a parceira com os dedos. É só o pênis com camisinha e olhe lá. Tanto nojo que odeiam a idéia de fazer sexo oral, ou estimulam a parceira dessa forma apenas um pouquinho, por obrigação, com a pontinha da língua. Com licença, eu já fui muitíssimo bem chupada e muitíssimo bem acariciada e digo que gostar de mulher é muito diferente de gostar apenas e tão-somente do canal vaginal. Mulher tem clítoris. Tem grandes lábios, tem pequenos lábios. Tem monte de vênus.


Tem homem que não gosta de seios caídos, não gosta de seios grandes demais, não gosta de seios pequenos demais, não gosta de seios de tamanhos levemente diferentes, nem de mamilos planos, nem de mamilos invertidos, nem de mamilos escuros, nem de peitos com estrias, nem de peitos com cicatriz de silicone, enfim, não gostam de peito NENHUM. Nenhum, gente. Só aprendeu a gostar de imagens digitalmente editadas. Tem homens hetero que me dão vontade de gritar "péra lá, quem gosta de mulher aqui sou eu!! Você gosta de fotos da Playboy, já mulher, meu camarada... mulher é OUTRA coisa. GRAÇAS A DEUS!!"

Mulheres não são planas, unidimensionais, nem feitas de celulose e tinta, como certas fotos por aí. Favor não confundir uma coisa com a outra.

Tem homem que não gosta de grande demais, larga demais, de mulher que já passou por parto normal, de grandes lábios grandes demais, "para fora" demais; escuros demais. Enfim, não gosta de buceta. Nenhuma é bonita, a não ser que passe por depilação e vaginoplastia, sendo que ambos os procedimentos infantilizam a genitália feminina, fazendo-a ficar com a aparência típica de uma idade anterior à puberdade. Isso, minha gente, não é gostar de mulher. É gostar de criança e é pedofilia.

Não gostar de buceta não depilada se equivale estritamente a não gostar de buceta. Só querer fazer sexo oral em mulher depilada é uma chantagem infantil para amarrar mulheres a comportamentos e estéticas artificiais. Só querer fazer todo e qualquer sexo com mulher depilada, então...! Bonecas de plástico, minha gente. Por favor. Admitam que é isso que vocês querem - nós, mulheres de proteína, carboidrato, gordura, água, sais, não temos a menor obrigação de nos plastificarmos para nos encaixarmos no gosto de ninguém.

Fui particularmente bem comida pelo cara com quem tive a minha primeira vez. Ele colocou todos os dedos no meu corpo antes de tirar a minha roupa, lambeu os dedos, ficou enlouquecido com o cheiro. Colocou a mão sob o meu nariz. "Está sentindo? É o seu cheirinho." E respirou forte, sugando cada partícula de ar. Eu achei o cheiro levemente enjoativo, ele achou profundamente excitante. Isso é gostar de mulher. Gostar de mulher com o odor neutralizado por sabonete íntimo é outra coisa. Ooooooooooooooutra coisa, meu bem. E ainda há mulheres que aderem: abusam dos absorventes anti-odor, dos sabonetes neutralizadores de cheiro, dos lencinhos, etc. E isso não é nem normal, nem saudável.

Já o homem com quem transei por último acariciou a penujem das minhas pernas (que nunca foi clareada) com a maior doçura quando tudo terminou. Ele deslizava as mãos pelas minhas coxas, pelas minhas canelas, fazia cócegas atrás dos meus joelhos... nenhum daqueles pêlos o incomodava em nada.

Para poder dizer que gosta de mulher, por favor, goste de tudo o que é inerentemente feminino. Isso inclui vagina e todos os seus arredores, peitos, pêlos, os odores do corpo, a menstruação, a gravidez, a amamentação, tudo.

E, mais do que isso. Mulher tem personalidade, valores, cérebro, experiências, gostos e personalidade. Qualquer um que queira menos do que isso não merece que a gente se dê ao trabalho de ficar empregando empenho em agradar ou satisfazer.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Meu feminismo não deve satisfação para mascu - Outra abordagem



     Falei no texto anterior sobre achar um erro que o movimento feminista fique se justificando perante os masculinistas, mas não acredito ter esgotado o assunto. Para o texto não se estender muito, escrevo um segundo texto abordando outro aspecto dessa temática.
     Há um mito da mulher ideal, gentil, generosa, boa, carinhosa, linda, etc. Há, também o estereótipo da feminista: gorda, peluda, feia, arrogante, paranóica, agressiva, e lésbica. Esse segundo, tão distante do primeiro padrão, é muito divulgado como aquilo que as feministas realmente são e muitas estão engajadas numa luta para melhorar a imagem do movimento, desmentir essas acusações.
     O esforço em mostrar que as feministas não são monstros, não querem dominar os homens, não querem passar a ser violentas com eles, etc faz com que, quando a luta contra o patriarcado se torna mais acirrada, e o uso da força se torna necessário, muitas feministas recuem, pelegando, em nome da imagem pública "limpinha e cheirosinha" do feminismo ser preservada.
     Em primeiro lugar, para se preservar uma imagem precisa pré-existir, e não existe uma imagem imaculada do feminismo a ser preservada. A imagem do movimento feminista sempre será ruim, e ele sempre será mal-visto, se não pelos mitos acima, por outros. Ficar combatendo a má imagem do movimento é um desperdício de energia e uma grande falta de foco, porque enquanto os homens estiverem sozinhos no poder, donos da mídia de massas, eles sempre irão difundir uma imagem negativa de quem luta contra isso. Se convencermos a todos de que não somos peludas, dirão que somos outra coisa, e eles têm muito mais poder que nós para divulgar imagens, textos, vídeos.
     Não podemos recuar e travarmos um combate que, na prática, não ameaça o poder hegemônico, por só se utilizar de palavras (doces), gentileza, esclarecimento, etc. Temos que usar a força, como a institucional (prisões, multas, etc) e a auto-defesa. As artes, os discursos, as aulas, são recursos que somam ao movimento, mas não são os únicos válidos.
     A idéia de que as feministas são fora do padrão estético estabelecido pela mídia burguesa também não deveria ser um problema para nenhuma de nós. Esses dias, eu estava procurando perfis de feministas no Twitter para adicionar, quando me deparo com uma bio que dizia "feminista - do tipo que se depila". Qual a relevância disso? Ao fazer coisas como essas não estamos, afinal, reiterando a invalidade de a mulher decidir o que fazer com o próprio corpo?
     E daí se formos gordas? E daí se formos peludas? Mas, mais importante do que tudo o que eu disse até agora: e daí se formos lésbicas?
     Para mim, o mais nocivo dos comportamentos de dar satisfação aos masculinistas é jurar de pés juntos que não se odeia homens, até sou casada com um, tenho dois filhos homens que eu amo, etc. A resposta não-lesbofóbica para as assertivas masculinistas é: muitas feministas são lésbicas SIM e isso NÃO é um problema. 
     O feminismo que não rompe com a heterossexualidade compulsória não é emancipador de todas as mulheres, nem é um aliado adequado para o movimento LGBT. Não adianta nada ter uma página feminista no Facebook, 60% das suas publicações serem contra a homofobia, 30% contra o racismo, 10% serem publicações feministas, e quando alguém for comentar nessas poucas publicações que somos um bando de sapatas, negar enfaticamente. Isso contribui para a invisibilidade lésbica, pois se nem no movimento de luta pelos direitos das mulheres há lésbicas, onde elas estão então? No mais absoluto escuro, se é que existem.
     Dar satisfação para machistas e masculinistas a respeito da nossa (hetero)sexualidade é perder uma excelente oportunidade de combater a invisibilidade lésbica e, mais que a invisibilidade, a condenação sobre elas. 
     Se você se depila, se você é hetero, se você é magra, não enfatize isso nos debates. Enfatize que o movimento feminista é composto por mulheres diversas, e que diferente do resto da sociedade na qual ele se insere essa diversidade é bem-vinda.

Meu feminismo não deve satisfação para mascu



     O machismo é amplamente difundido na sociedade como um todo, mas sua vertente mais coerente, ou mais radical, o masculinismo, tem tomado mas espaço nas últimas duas décadas através do ciberativismo. Através dele, trava um diálogo com as feministas, acusando-as de hipocrisia, de quererem submeter os homens, de não se ocuparem dessas e aquelas causas que são de interesse masculino por misandria, etc.
     Uma parte da educação machista que mulheres recebem é para doutriná-las a cuidar dos homens, dar atenção mais às demandas deles do que às suas próprias. A mãe mártir que se sacrifica pela cria e a esposa perfeita que apenas cede sem jamais contestar são dois exemplos de arquétipos muito fortes na nossa sociedade. Somos educadas para cuidar dos outros, dos bebês, dos irmãos mais novos, do futuro marido, do marido enfim, dos filhos, e continuamos a cuidar deles depois que são adultos. Cuidamos dos doentes da família e das pessoas idosas, só não cuidamos de nós mesmas.
     É dentro dessa aculturação machista que podemos entender o comportamento de certas feministas de dar atenção aos mascus, respondê-los, argumentar com eles, se justificar perante eles. Dar provas de que somos contra meia-entrada para mulheres nas festinhas, fazer campanha contra o serviço militar obrigatório, perder tempo com o mito de que mulheres têm prioridade em botes salva-vidas... Tudo isso, entre outros, são desvios de foco e energia, no seu aspecto menos grave, e no mais grave uma cooptação do movimento de mulheres para que ele faça o trabalho dos homens por eles.
     Já arrumamos o que os homens bagunçam, cozinhamos o que eles comem, limpamos as roupas que eles sujam e assim por diante (de conjunto, enquanto mulheres, embora você leitora especificamente não faça isso).  Não precisamos lutar as lutas que eles não lutam, e secundarizar as nossas.
     Criei um conceito que acredito ser útil para a análise da nossa realidade e acredito que ele pode ser muito positivo para o movimento se começar a ser usado: a idéia de que o machismo, bem como outras formas de opressão, possui subprodutos. Explico.
     Uma sociedade machista se reivindica um justo regime igualitário, no qual a mulher, encarregada da casa e dos filhos, se equivaleria ao homem, encarregado do sustento da família através do trabalho remunerado. Um não seria menos importante que o outro pois haveria uma complementariedade. As mulheres teriam que desenvolver as características mais adequadas à tarefa social que lhes foi destinada, e seriam elas a doçura, a delicadeza, a beleza, etc. Já os homens desenvolveriam a força, a coragem, o espírito de luta, etc.
     Sabemos que isso não é igualitário e que os homens se beneficiam de várias maneiras. Porém, nenhum sistema é 100%. Se você prestou atenção às aulas de Física, deve se lembrar que não existe transformação de energia livre de desperdício. O ventilador transforma energia elétrica em energia mecânica de movimentação das pás que nos aliviam do calor, mas uma parte dessa energia se perde na produção de ruído. A lâmpada transforma a energia elétrica em luminosa, mas só predominantemente, pois uma parte vira energia térmica - se você tocar uma lâmpada acesa há muito tempo, pode se queimar. Uma grande quantidade de energia é empregada em dominar mulheres, mas uma parte disso acaba prejudicando, ainda que em pequena medida, aos próprios homens. 
     O mito do macho forte e dominante que é assertivo, corajoso, destemido, resistente, bruto, violento e insensível é perfeito para o exercício da força contra mulheres, mas tem como subproduto uma obrigatoriedade de o homem não demonstrar fraqueza.
     A divisão de todas as coisas do planeta entre coisas de mulher X coisas de homem, num modelo maniqueísta o qual o primeiro lado é evidentemente o inferior promove duas coisas. A primeira é que aquilo que tem mais valor é creditado ao homem: as atividades de trabalho e esportivas melhor remuneradas, as brincadeiras que dão mais liberdade, as roupas mais confortáveis, etc. A segunda é que as coisas marginalizadas são destinadas apenas às mulheres, e os poucos homens que fazem uma questão absoluta de colocar uma blusa rosa ou dançar ballet serão vistos como homens que abraçam a marginalidade e a inferioridade - e serão censurados por fazê-lo, para que o patriarcado não perca braços de trabalho para a causa oposta.
     O mito do macho pegador que tem relação sexual com muitas mulheres, é infiel, polígamo, viril, etc dá  liberdade para os homens exercerem sua sexualidade sem qualquer fronteira - dando margem desde aos desejos mais românticos, com parceira física, até as brutalidades mais hediondas, com mulheres prostituídas. Se um ou outro homem tem problemas de ereção, ejaculação precoce, etc ao invés de assistido ele será penalizado pelo patriarcado.
     Esses são 3 exemplos, mas eu poderia listar muitos. Resumindo, o que eu quero dizer é: masculinistas têm uma estratégia para o movimento feminista. Eles querem que nós limpemos o patriarcado de seus subprodutos inconvenientes para os homens. Para isso, lançam a armadilha de "se você não luta contra este micromalefício do patriarcado para os homens, não quer igualdade de fato. Quando as mulheres ganharem salário igual por trabalho igual, nós vamos ter que continuar pagando meia-entrada nas baladas? Desigualdade!".
     Ganham mais, trabalham menos, ficam desempregados com menos freqüência, não são vítimas de estupro nem violência doméstica quase nunca, não têm suas auto-estimas roubadas pela indústria de cosméticos, sua liberdade sexual é respeitada, etc. E não querem lidar com ônus NENHUM por isso. Como contornar a situação? Colocando as feministas para trabalhar contra o ônus gerado pela incompetência do patriarcado em ser 100% benéfico para os homens sem qualquer contrapartida.
     Os homens têm que fazer um ou outro esforço extra que é um pagamento (ainda que mínimo) pelo privilégio. Não demonstrar fragilidade ou chorar em público, em troca de não ser estuprado; não usar camiseta rosa, em troca de não fazer o serviço de casa; pagar mais para entrar na balada, chegar lá e assediar mulheres nela; passar um ano aborrecedor no serviço militar aprendendo a bater e a se defender, em troca de praticar violência doméstica contra as mulheres impunemente e assim por diante. 
     Tenho certeza que vocês conhecem muitos homens honestos, de bom coração, gentis, românticos, que o parceiro de vocês divide o trabalho doméstico e assim por diante, e que vocês não querem vê-los sofrendo com nada. Por favor, se você é feminista, cure a sua auto-estima primeiro, olhe para o tamanho das próprias feridas abertas, note que 5 anos a mais de trabalho prestado para conseguir direito de aposentadoria não é nada perto do que você sofreu, sofre e ainda sofrerá por conta do machismo. Se emancipe da necessidade de cuidar dos homens. 

PS: a fonte dos dados a imagem é pesquisa do IBGE efetuada em 2011, conforme pode ser observado neste link.
     

domingo, 20 de outubro de 2013

Movimento feminista - O único movimento social que não faz alianças políticas

Os diversos movimentos sociais, sejam por que causas forem, não conseguem sobreviver sozinhos. Felizmente, eles costumam se aliar a outros, formando redes de apoio mútuo. Vou citar alguns exemplos brasileiros de grupos que se ajudam:

  1. MST, Consulta Popular, Levante Popular da Juventude, Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB)
  2. MML, ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes - Livre), CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular Coordenação das Lutas)

Dentre vários outros. Porém, o movimento feminista foge a essa lógica. Para entender o motivo, precisamos entender como o machismo atua em nossas vidas.

No patriarcado, os homens são educados para a autonomia, enquanto as mulheres são educadas para a heteronomia. Isso significa que os homens são educados serem capazes de cuidar de si próprios, enquanto que as mulheres são educadas para cuidar dos outros (mas não de si mesmas), ao mesmo tempo que se mantém tuteladas pelos homens. Assim, as mulheres cuidam dos irmãos mais novos, cuidam da casa que é bagunçada por todos, cuidam do namorado, cuidam do marido, cuidam dos pais na velhice, mas são incapazes de levar uma vida autônoma, tanto no plano material como no plano emocional.

No plano material, as mulheres são doutrinadas para acreditar que são fracas até um ponto em que não conseguem abrir uma lata de conserva; trocar um chuveiro queimado, um galão d'água, um pneu furado ou um botijão de gás; não sobem em escadas para fazer reparos em lugares altos; muito menos praticam esportes de luta, carregam peso ou fazem serviço pesado.

No plano emocional, as mulheres enxergam a si mesmas como aquelas que cuidam, que protegem e que tomam conta, e isso é uma parte vital da nossa identidade. Pensamos a nós mesmas como aquelas que ajudam, e fazemos isso tanto em casa (serviço doméstico, cuidado de crianças e idosos, etc) como fora (profissões como enfermeiras, professoras de ensino infantil, babás, empregadas domésticas, decoradoras, maquiadoras, cabelereiras, etc têm como centro justamente o cuidado com os outros). Em profissões tipicamente masculinas, manda-se nos outros (cargos de chefia), bate-se nos outros (polícia, exército), raciocina-se por aqueles que vão executar o serviço braçal (engenheiros de todas as áreas), conduz-se os outros (motoristas), etc.

O movimento feminista, embora tenha feito vários avanços, conta com mulheres que ainda reproduzem o machismo nas suas próprias vidas e, mais importante, reproduz coletivamente o machismo que tenta combater.

Na reprodução individual do machismo no cotidiano de mulheres feministas, vemos que muitas militantes ainda não conseguiram superar problemas de auto-estima, relacionamentos amorosos violentos, situações de violência doméstica, etc. É natural que seja assim e só dentro do movimento tais mulheres vão conseguir superar essas dificuldades.

Mais complicado do que isso é o movimento feminista, de conjunto, reproduzir o machismo de maneira unificada, como um todo: ele ainda está inserido numa lógica de cuidar do outro mais do que de si próprio. Ele existe para dar conta das demandas femininas, porém assim que aparece uma demanda do movimento negro, do movimento LGBT, do partido de extrema-esquerda no qual a feminista está inserida, do MST, uma causa pelos direitos dos animais, das plantas, das estrelas, o movimento feminista secundariza a própria luta para ser ponto de apoio de uma outra. Por vezes, ainda, diz-se que elas estão abdicando da luta pelos direitos das mulheres para lutar por algo "maior' (o socialismo, o anarquismo, etc).

Esse discurso não é muito diferente da dona-de-casa que deixa de trabalhar por algo "maior" (seu lar), da mulher que não quer ser mãe mas abdica de abortar e de muita coisa na sua vida por algo "maior" (um filho), da mulher que está em um casamento violento mas não se divorcia por algo "maior" (a sagrada instituição do casamento), da mulher religiosa que deixa de ir a festas, de vestir o que gosta, de ter vida sexual ativa por algo "maior" (as doutrinas da Igreja), entre muitos outros exemplos.

Uma sociedade socialista ou anarquista deve ser, por definição, radicalmente igualitária entre toda a humanidade. A causa feminista só não está naturalmente incluída na socialista e na anarquista caso as mulheres não sejam humanas - sejam animais, ou objetos.


O movimento feminista é, dentre todos os movimentos sociais, o único que não faz alianças políticas - ao invés de fazer aliança com o movimento negro, de fazer aliança com o movimento LGBT, o movimento feminista converte-se em capacho dos mesmos.

Aliança política pressupõe apoio MÚTUO. O MST apóia a Consulta Popular, e espera da Consulta que apóie o MST de volta. Caso ela não o faça, ocorrerá um conflito, com possível rompimento da aliança. E a aliança não é passível de ser rompida porque o MST acha a causa que a Consulta defende errada - trata-se da MESMA luta. Porém, o MST não pode ser vampirizado ou parasitado pela Consulta Popular. O movimento feminista, por outro lado, NÃO é apoiado pelo movimento negro, e por vezes não é apoiado pelo movimento LGBT. Muito pelo contrário: é recorrente que negras e lésbicas vítimas de racismo ou machismo sejam expulsas de seus espaços de militância sob o argumento de que, ao reivindicar feminismo nesses espaços, elas estão "rachando o movimento".

Quando defrontadas com esse fato, óbvio para qualquer uma com boa vontade para ver a realidade com clareza, as feministas frequentemente defendem esse comportamento dizendo que lutar contra o racismo e a homofobia não é estratégia política, é uma obrigação moral. Chega a ser hilário que lutar contra o machismo, quando se é negro ou sexodiverso, não seja obrigação moral também! Curiosamente, ninguém cobra a obrigação moral de ser feminista dos demais movimentos - e quando cobra é imediatamente rechaçada. Sem dúvida combater outras opressões é a coisa mais ética, porém não justifica debandar do 8 de março para ir no Fora Feliciano. É possível lutar contra a homofobia e contra o racismo SEM deixar de lutar pelo feminismo. Mas as próprias feministas secundarizam a luta por igualdade entre os sexos, e a colocam no final da lista de prioridades. Se nem as mulheres feministas priorizarem a causa, quem irá? E, sim, é necessário alguém que priorize isso.

Somos mesmo obrigadas a lutar todas as lutas do mundo, e mais ninguém é obrigado a lutar as nossas? Ou classe trabalhadora tem, como um todo, a obrigação de se dar as mãos e lutar para a derrubada do capitalismo sem discriminar pelo sexo quem está junto na luta?

Os partidos de esquerda (PSOL, PCdoB, PCB, etc) merecem um capítulo à parte. Eles geralmente afirmam que a luta feminista é errada porque divide a classe trabalhadora. Nada poderia ser mais absurdo: as mulheres são a maioria da classe trabalhadora, a maioria das pessoas pobres. O que divide a classe trabalhadora é uma parte dela estuprar, espancar e prostituira a outra, não reivindicar que "a classe trabalhadora tem dois sexos" e que é necessário construir uma sociedade igualitária econômica e sexualmente.

A presença do movimento feminista faz toda a diferença nas lutas contra o racismo e a homofobia. Fomos linha de frente em várias dessas lutas, que poderiam não terem sido vitoriosas se não fosse a nossa presença maciça e a nossa atuação ferrenha. Por isso, defendo que o movimento feminista pode usar, como forma de pressão para acabar com o machismo nos meios negro e LGBT, a tática de retirar apoio a quem não nos apóia, devolvendo quando machistas negros ou homossexuais se retratarem da violência que exerceram. Eles fariam o mesmo conosco.

Tenho certeza que alguém virá dizer "não, os movimentos negro e LGBT podem conquistar tudo o que quiserem mesmo sem as feministas". Se isso é verdade, por que nós nos damos ao trabalho? Se somos dispensáveis, por que fazemos esse esforço? Não, não somos dispensáveis nem podemos acreditar nesse discurso que nos desmerece.

Os negros e homossexuais continuam violentos conosco pelo mesmo motivo que os maridos que espancam suas mulheres: eles sabem que não vamos denunciar, que se denunciarmos vamos retirar a queixa, e que eles poderão voltar a fazer o mesmo que nós continuaremos lá, seja para ir a atos, seja para lavar cuecas, como convém tanto àqueles que nos agridem. Que sempre estaremos lá para cuidar deles, das demandas deles, ainda que eles não cuidem das nossas de volta.

Chegou a hora de o movimento feminista parar de fantasiar que os negros e homossexuais são aliados, quando nós nunca vemos o movimento negro e o LGBT agitando suas bandeiras nos nossos protestos, nunca vemos eles presentes nas nossas marchas, nunca vemos eles nos defendendo em discussões presenciais ou virtuais, nunca vemos eles votando a favor das nossas propostas, mas SEMPRE vemos denúncias de machismo nesses movimentos ou nos partidos de esquerda.

A realidade é dura, mas é melhor lidar com ela do que insistir em erros: a maioria dos negros é machista, a maioria dos homens gays e bissexuais é machista, o movimentos LGBT é extremamente excludente com as mulheres lésbicas e bi, o movimento negro destrata as mulheres negras de variadas maneiras, e isso NUNCA vai mudar se nós não EXIGIRMOS que mude.

Exigir que nossos companheiros que também são oprimidos sejam feministas não é imoral, não é errado, não é pecado, é exigir nossos direitos! Respeitar mulheres não é favor, é dever de todo militante social tanto quanto não ser racista nem homofóbica é dever de toda feminista! Chega de falar baixo com agressores!! Agressores são de todas as cores, são de todas as orientações sexuais, lideram movimentos sociais de esquerda e nós não podemos mais aceitar essa situação!

sábado, 28 de setembro de 2013

Prostituição: direito das mulheres ou direito sobre as mulheres? Elaine Audet

por Elaine Audet, tradução de  hembrista@riseup.netStella, um grupo de Montreal criado em 1995 que advoga para o direito das mulheres que são prsotituídas, tem demandado que a prostituição seja completamente descriminalizada e que haja um reconhecimento das "trabalhadoras sexuais". Essa posição não é aceita com unanimidade. De fato, para maior parte das feministas, prostituição é vista como uma conseqüência da exploração sexual de mulheres, sendo necessário que prostituição seja abolida e haja criminalização dos clientes e cafetões.

Neste necessariamente breve artigo, eu vou focar na prostituição de mulheres adultas, tocando apenas incidentemente a prostituição de homens e crianças e o tráfico internacional de mulheres.

Desde os 70, tem havido uma tendência em torno do reconhecimento do conceito de "trabalhadoras sexuais" no Quebec, Europa e Estados Unidos. Ver prostitutas como "trabalhadoras sexuais" sugere que elas são meramente trabalhadoras providenciando um serviço "social" e deveria ser dado, então, os mesmos direitos que outros trabalhadores explorados que são esmagados pelas forças da globalização, e tornados em objetos mercantilizáveis.

No Quebec, membros da Stella têm falado alto em favor da liberação da prostituição. Eles rejeitam a idéia de que prostitutas deveriam ser treinadas como vítimas e dizem que maior parte das prostitutas tiveram livremente escolhido esse papel, encontrando em seu trabalho uma fonte de empoderamento. Sem dúvida, prostitutas têm uma grande coragem. Testemunhas dessas mulheres, como aquelas nas memórias de prostituição de Jeanne Cordelier, iluminam isso:
"Quando a porta do quarto bate, não há escapatória…Sem saída, sem saída de emergência."¹ Mas a despeito dessa coragem, e os clamores de Stella, não há espaço para ceticismo, especialmente quando o relatório de um estudo internacional mostra que 92% das prostitutas deixariam a prostituição se pudessesm².

Um deslize gradual em torno da desumanização


Em debates sobre prostituição, todas palavras são escolhidas, em particular os conceitos de direitos, escolha livre, trabalhadoras sexuais. Considerando o último citado, por exemplo, a ex-prostituta francesa, Agnes Laury, acredita que  vendo essas mulheres como "mercadorias vendidas por homens a homens"³ estaria mais perto da realidade.

Nós vivemos numa sociedade consumista/de consumo onde a prioridade vai para o individualismo e para o consumo irrestrito de pessoas e coisas, e baseada no consumo uns dos outros. Em tal contexto, ver prostitutas como trabalhadoras serve para encobrir a oposição feminista ao marketing de mulheres numa escala global. Isso permite os cafetões afirmarem que mulheres fazem isso por "escolha", e mesmo por "gosto", então escondendo o que todos estudos demonstram: que mulheres prostituem a si mesmas por necessidade.

Cultura Patriarcal reside no princípio de que o dever único, e fonte de poder, de mulheres é satisfazendo homens sexualmente em casamento e por prostituição. A existência de prostituição, e ver isso como "trabalho sexual" esconde a extensão desta como escravidão sexual e reforça a noção de que mulheres são meros objetos intercambiáveis que devem ser acessíveis e preparadas para todos homens a toda hora e todo lugar.

Os interesses em aposta

Quando nós consideramos quem iria lucrar com a liberação da prostituição, se torna claro que NÃO seriam as mulheres prostituídas ou mulheres em geral. Ao invés disso, os beneficiários serão os cafetões, os traficantes, o crime organizado, clientes, e todos estes que vêem a sexualidade como nada além dum ato mecânico, privado de reciprocidade ou qualquer responsabilidade. Liberação não apenas beneficiará eles, mas também qualquer um que quiser ser apto a tomar poder sobre uma mulher.

É claro, é impossível falar sobre prostitutas como um todo; suas situações divergem consideravelmente de acordo com se elas são chamadas garotas, acompanhantes, dançarinas nuas, strippers, seja se trabalham nas ruas ou em salões de massagem; seja se são autônomas, ou precisam dar maior parte do dinheiro que ganham a um cafetão.

Garotas são frequentemente recrutadas para prostituição em torno dos 13 anos quando muitas foram feitas vulneráveis por violência, pobreza, desemprego, e drogas nos ambientes em que vivem. A maioria experimentou desnudamento forçado por cafetões e membros de gangues de rua que procuram despersonalizar uma mulher até que ela perca a habilidade de agir por sua própria iniciativa ou mesmo pensar por si mesma.


Muitas meninas passaram tempo em abrigos, casas de reforma ou prisões, mais da metade têm adicção por drogas. Vivendo e experimentando tais circunstâncias, como pode alguém falar sobre a escolha livre de uma menina/mulher de ser prostuída?

Numa escala internacional, os rendimentos em prostituição estão em torno de 72 bilhões de dólares por ano, agora mais lucrativos do que tráfico de armas e drogas. Isso traduz-se em milhões de dólares no Canadá, onde um cafetão coleta em média $144,000 por ano de cada uma das mulheres em situação de prostituição(4). Em torno de 5.000 a 10.000 pessoas em Montreal fazem sua vida no negócio da prostituição, muitas outras têm interesse na expansão de tal mercado lucrativo. E dadas as conexões, esses potenciais lucradores da prostituição têm os recursos financeiros e midiáticos para desviar críticas legítimas da prostituição e para exagerar a importância da divisão dentro do movimento feminista por adotar a posição de uma minoria da "livre escolha" que pretende falar por todas as prostitutas. Ao fazer isso, eles dão suporte para a liberação para que retenham seu próprio controle.

O corpo mercantilizado

O presente movimento de liberação da prostituição está enraizado no movimento geral para livre tráfico, troca comercial, e serve esta aproximação neoliberal por fabricar a prostituição como algo "bom" para a economia. Deste modo, na mídia e no Reino Unido, há uma crescente tendência a apresentar a indústria de sexo como uma solução para os problemas econômicos ou, mais que isso, como um caminho ao desenvolvimento.

Considerando isso, é no interesse da Organização Mundial do Trabalho (OMT) sediada no Reino Unido que promoveu um relatório em 1998 que apoiava a legalização da prostituição porque: "A possibilidade de um reconhecimento oficial poderia ser extremamente útil para estender a rede de taxação (de impostos) para encobrir mais das atividades lucrativas conectadas com isso. (5)". Esta posição é clara sobre a admissão de que sexo é uma indústria e que isso pode contribuir diretamente e indiretamente, e em suas formas estendidas, para empregar, para rendimento nacional, e crescimento econômico.

Prostituição constitui uma das formas mais violentas de opressão coletiva sobre mulheres e, com pouquíssimas exceções, é sempre sobre controle coercitivo de cafetões (6). Então, como podemos invocar o uso livre do corpo próprio de alguém como um direito humano quando as condições nas quais prostituição é praticada são tais que explicitamente violam o respeito e a dignidade da pessoa reconhecida pela Convenção para a "Repressão do tráfico de seres humanos e a exploração de alguém na prostituição", adotado em 2 de Dezembro de 1949 pelas Nações Unidas?


Muitas prostitutas, quebrando a genérica "Lei do Silêncio" que as envolve, falaram sobre sua constante exposição a toda sorte de humilhações, agressão física e sexual, e assalto, assim como a"`Roleta Russa" de relações sem camisinha ou outras proteções. E mesmo se nem todos homens são violentos, aqueles que procuram sexo com prostituas necessariamente compram o poder para ser violento com impunidade. "Eu estava com medo, consciente de que a situação poderia se tornar incontrolável a qualquer momento", diz a prostituta do Quebec (7). Mais ainda, "As garotas espancadas que não apresentam nenhum queixa estão devolvendo a mensagem de que prostituição é um acordo empacotado…que alguém deve aceitar até mesmo o inaceitável (8)." Até quando o direito dos homens continuará a ser sistematicamente confundido com Direitos Humanos?


Muitos dos que argumentam pela liberação total da prostituição tentam desacreditar feministas que são opostas a essa posição dizendo que em última instância são moralistas, portanto, vitimizantes e estigmatizantes das prostitutas. Todavia, neo-abolicionistas não são responsáveis pelas condições de trabalho das prostitutas ou pela hostilidade daqueles que vêem sua vizinhança transformada num mercado aberto de mulheres e drogas. Por que nós não temos sido aptas a extirpar as causas do problema,
devemos legitimar suas conseqüências?

Trilhas para ação

Nenhum indivíduo pode ficar indiferente ao problema que, no fim, diz respeito e toca a nós todas. Está claro que qualquer que ele seja, a liberação da prostituição (e de cafetões e clientes) como demandado por Stella, não vai providenciar uma alternativa real para a crescente miséria de prostitutas e deve mesmo fazer as coisas somente piorarem ainda mais.


Similarmente, há o bloco da proposição quebeconiana para um retorno aos bordéis. Essa "solução" tornaria o Estado o principal cafetão, um paralelo de como o Estado tem substituído a Máfia nos cassinos provincianos. O exemplo da Holanda mostra que legalização institucionaliza e legitima a "indústria" do sexo, deixa cafetões mascarados como chefes de trabalho e "homens de negócios" legais, e racionaliza o marketing de prostitutas localmente e transnacionalmente.

A única esperança para melhoria da maior parte das prostitutas e acabar com o marketing de mulheres reside no exemplo providenciado pela Suécia que, em 1999, passou uma legislação que criminalizou cafetões e clientes, mas não as prostitutas. Essa política levou a uma redução pela metade no número de prostitutas, mesmo se isso não sucedeu-se completamente na erradicação da prostituição sub humana. No entanto, o governo suíço continua a preserverar seus esforços por constantemente injetar novos fundos para programas de desintoxicação, reinserção de prostitutas, e educação dos clientes. Do interesse, e encorajador, é que o Lobby Europeu de Mulheres, compreendendo em torno de 3500 grupos, têm encorajado a adoção por outros governos de uma posição similar à da Suécia. (9).

No Quebec, há um consenso de que os governos de todos os níveis deveriam parar de agir em torno das prostitutas como se elas fossem criminosas e, ao invés disso, dar a elas acesso a serviços de saúde, sociais, legais e de segurança que estão requerindo. Debates em torno de grupos no assunto da criminalização de clientes, cafetões estão já sendo submetido às leis canadenses, mesmo se estas tiveram até agora sido aplicadas apenas em formas realmente limitadas.

Quebec pode achar inspiração na experiência da Suécia e nas aproximações de cidades como Toronto e Vancouver onde há esforços de dar à prostitutas a ajuda e proteção de que precisam, colocar em questão os meios de resistência a cafetões e traficantes (geralmente os mesmos), e a dissuadir e sensibilizar clientes. A abolição da prostituição pode apenas ser uma estratégia objetiva a longo prazo, mas nós precisamos agora questionar todas relações sociais, econômicas e sexuais de dominação e tomar os passos imediatos para lutar contra pobreza e violência contra mulheres.

"Para sair fora disso", diz a sobrevivente de prostituição Agnes Laury, " é preciso uma vontade inabalável de não voltar atrás no seu caminho, ser ajudada e no mais das vezes, romper totalmente com o habitat anterior"(10). De forma simples, para "sair fora disso" é passar do estado de vítima para o de `sobrevivente', de uma mulher que luta. É tempo de todos nós quebrarmos o silêncio em torno da compra de serviços sexuais e perguntar se este não é na verdade o poder discricionário de homens à violência sexual que sublinha a prostituição, e não a escolha das mulheres. Analisar prostituição desta forma não é uma matéria de puritanismo, mas perguntar por questões éticas fundamentais sobre comércio de humanos. Ao invés de invocar uma "escolha livre" de alguém vender o seu corpo, um falso pretexto para justificar a prostituição, não poderíamos chamar pelo princípio humanitário de um limite livremente aceito para o uso de humanos como mercadorias, como foi feito em face do escravismo, para abolir o marketing tanto da sexualidade quanto da reprodução?


Notas
1 Françoise Guénette, entrevue avec Gunilla Ekberg, « Le modèle suédois », Gazette des femmes, mars-avril 2002, Vol. 23, no 6.

2 Jeanne Cordelier, La dérobade, Paris, Hachette, 1976.
3 Agnès Laury, Le cri du corps, Paris, Pauvert, 1981.
4 Conseil du statut de la femme, La prostitution : profession ou exploitation ? Une réflexion à poursuivre, juin 2002. Gazette des femmes . Ce document est disponible en version intégrale (pdf) ou en version synthèse (pdf).
5 Lin Lean Lim, The Sex Sector : The Economic and Social Bases of Prostitution in Southeast Asia, Genève, Organisation internationale du travail (OIT), 1998. Janice Raymond, Legitimating prostitution as sex work : UN Labor Organization (ILO) calls for recognition of the sex industry, 1998
6 Delphine Saubaber, « Paroles d'anciennes », L'Express, 22.08.02.
7 La parole aux prostituées
8 Ibid.
9 Françoise Guénette, entrevue avec Gunilla Ekberg, « Le modèle suédois », Gazette des femmes, mars-avril 2002, Vol. 23, no 6.
10 Les survivantes